A IDADE DO SUCESSO
 

Bom gente, pra falar a verdade, a angustia que era grande passou. Na verdade acho que era vontade de comer doce, ou talvez TPM.
Tristezas a parte, a angústia passou, mas a inspiração não.
Decidi sentar e escrever. Graças a DEUS, os tempos são bem mais modernos, escrever no computador dói menos o braço do que escrever em cadernos brochura. Nossa! Isso soa tão antigo que caso alguém com metade da minha idade leia, vai ter que procurar no dicionário.
Chega de enrolação antes que a vontade de escrever vá embora, já não temos mais a ganância por altas horas de madrugada quanto há 15 anos atrás, para ser mais exata...
Há um tempo atrás estava entrando numa depressão, porque tinha chegado na idade do sucesso, mas o tal sucesso estava um pouco longe daquilo que eu imaginava. A triste verdade é que estou a dois anos à frente da idade do sucesso, ou seja, 32 e ele ainda tardia um pouco a aparecer de acordo com o que lemos nas revistas femininas.
Triste "pacas", porque ainda to solteira, embora de namoro sério e modéstia a parte ainda dou um caldo, mas to solteira. Um turbilhão de dúvidas na cabeça, onde está o sucesso pintado pela TRIP, CLÁUDIA e nem sei quantas mais existem para tirar nosso sossego mental. E o casamento? Será que sou anormal? Será? Será que devo me sentir infeliz? Será que preciso me envergonhar de gostar de levar uma vida de solteira, ter minha casa, minhas manias de mulher, poder pendurar minha calcinha no chuveiro sem que ninguém reclame? Bom, calcinha no chuveiro já é demais né gente? Ai até eu reclamo. Mas quem liga? Afinal de contas é só uma calcinha e não um reator de uma bomba nuclear.
Depois de toda essa crise, comecei a pensar que estava um pouco amarga. Me senti um pouco velha. Fui pro espelho do banheiro, sabe aquele que a gente ama pra cutucar as espinhas quase escassas do rosto? Pois é, esse mesmo. Olhei para o meu pior amigo, pois me mostra todo dia um fio de cabelo diferente do que o habitual. Calma ai, não são os brancos ainda, mas sem tinta. Ufa! Passei para o maior e comecei a perceber que o tempo traz umas rachaduras para a bunda, quase não tenho coragem de dizer estrias. Alem daquelas covinhas irritantes do planeta CELUTIUNS AGUDUS. Pude ver também que a silhueta da cintura estava um pouco diferente. A pele já não tinha mais o vigor jovial sem o blush. Puts fudeu! E não é por falta de cuidado, porque todo esse corpinho é tratado a base de muito Vitória Secret’s. Nem sei ao certo se tem mesmo efeito na nossa pele, já que o creminho é gringo. Mas se você quiser fazer parte do sucesso da idade do sucesso, pelo menos, é o mínimo, uma bolsinha Louis Vouitton e um V.S.
Ah ta, tava falando do tratamento ao corpinho, algumas semanas comemos alface, verduras, picanha, chope, chegou a sexta feira.
Mas nem por isso o corpo merecia seres tão diferentes acoplados a ele. Depois dessa minuciosa inspeção corporal, fique um pouco preocupada. Se o externo já dá uns sinais de alerta, imagina por dentro. Afinal são anos de chopinhos, vinhos, gorduras e nem sei mais o que. Resolvi fazer um check-
up geral. Além das desagradáveis mudanças externas, o interno resolve copiar... Dá-lhe um monte de remedinhos para não acontecer isso ou aquilo. Parece que todo nosso estoque de anticorpos sumiu. É alergias, dores de cabeça, ai ui ui. Sem falar na libido, que às vezes eu preciso procurar o dicionário pra saber o que é.
Sem exageros, todo o trabalho e responsabilidade de provar ao mundo que você pode, que é inteligente, que ainda é gostosa, que se mantém, que é real, que não tem silicone, nossa cansa um bocado.
Todo esse processo da vida adulta me pirou um pouco. Resolvi sair, cair na balada, esquecer que tinha mais de trinta, não muito, apenas 2 anos a mais. Que na época do fato era apenas um.
Liguei pra uns casais amigos e combinamos de sair. Ir a uma balada de moçadinha, o que se subtende molecadinha...
Nem tudo era perdido, afinal de contas íamos para nos sentir tão adolescentes como tal.
Chegamos e o clima era A-N-I-M-A-L. Só a galerinha top, saradas e sarados desfilando pelo salão. Ops, errei o termo, salão era no nosso tempo de baile, no clube da cidade. Bom, como estava dizendo, os top todos no maior agito, e o dj, meu o dj bombando na pista.
A fila para pegar uma bebida, pois a festa era open bar, era tão grande que nem o homem elástico conseguiria se esticar tanto.
Mas o que importa é que todos ali tínhamos a mesma idade. Ah?
Ah era pra passar essa impressão, mas continua a festa. A música que o dj estava bombando, nem sei qual era aquele zumbido infernal, trance, psy, sai não sai, sei lá o que, nos impedia de nos comunicar uns com os outros. A mímica rolava solta, não importa somos todos teens.
Já passado algumas horas, umas poucas, duas na verdade. Eu e meu grupo de amigos já todos entediados com aquele ambiente louco, decidimos ir embora.
Mas mulher, você sabe né, não consegue beber um copinho de qualquer coisa que o cérebro já dispara o alarme: BANHEIRO BANHEIRO BANHEIRO.
Tivemos que ir ao banheiro enquanto os gentis cavalheiros nos aguardavam fora do local.
Ao chegar na fila do banheiro, a cena da ressurreição.
Minha amiga, também toda fora de forma, digo da forma das beldades criadas de 17 aninhos, continuando, sorriu linda e loira para um jovenzinho, que veio cheio de charme pra cima dela. Foi quando uma bomba explode, só vi o cogumelo. O gentil rapaz passou perto dela e disse, nossa você me lembra minha mãe.
Eu não pude conter o riso, afinal de contas, pimenta em olho alheio é colírio.
Certa de que iríamos sair dali, comigo pensando, que ainda era quase uma Britney Spears (Digo na fase boa viu gente), entro ao banheiro.
Foi quando eu caí. Aliás, minha ficha caiu. Todas as garotas bêbadas feito gambás (não que eu já não o tenha feito), mas a cena foi deprimente. Gritavam como se tentasse avisar um incêndio. Quando na verdade estavam apenas conversando. Falavam de sexo abertamente, não de qualidade e sim de quantidade, uma menina com talvez 18 anos, se propunha a dar aulas de, de, de, bom podem deduzir o que quiserem que aposto que é pouco. O ápice do meu assombro foi quando uma garota de uns 16 anos talvez, mas a maquiagem encobria um pouco a pouca idade, porém somos peritas nisso, saber pela pele é nosso forte. Então, essa mesma ai que eu disse, caiu quase em coma alcoólica, vomitava quase como a atriz do filme exorcista. Eu muito solícita, ou porque não dizer xereta, acho que próprio do amadurecimento, tentei ajudar.
Aí o golpe foi certeiro, umas das colegas, cheia de alguma coisa azul, que ela colocava na boca toda hora me disse:
Ô tia de boa meu...Tá tudo bem, ela só não segurou a onda, mas já já ela volta pra night. Pode ficar sussa tia, vai procurar sua turma.
Ai aquilo me parecia o fim do mundo... Como eu podia ser tão ridícula, querer voltar a adolescência só porque a bunda já teve um encontro afortunado com a gravidade.
Meu Deus, sanidade meu Pai. Foi isso que fiz, sai da festa da molecada e vim procurar minha turma. Mulheres de verdade, formadas, não precisamos mais prestar vestibular, profissionais cheias de sucesso, seguras de si, bonitas, cheirosas, podemos pagar pelas grifes, somos companheiras, amantes de verdade, queremos qualidade e não quantidade, somos professoras, somos tias, somos mães, somos amigas de verdade. Não usamos drogas (a menos que seja um tarja preta pra emagrecer), nos ajudamos nas bebedeiras e ainda por cima, pagamos impostos!
Amigas, desejo a todas que quando a crise da idade do sucesso bater, tenham consciência de que realmente somos melhores hoje.
Não seria justo ou leal competir com bundas alpinas, seios turbinados, cabelos 100% chapados. Mas convenhamos mulheres, contra fato não há argumento. Nossa maturidade e tranqüilidade diante da vida vale muito mais que tudo isso.